Discurso
Dr. Jorge Darze - Hospital Cardoso Fontes - junho de 2003
| Srs. Convidados, Estamos aqui reunidos para celebrar um momento especial! Há um ano e meio comemorávamos nesse mesmo local, uma outra posse. Aquela, sem o respaldo legal que se fazia necessário, porém, com a pertinência necessária pois que representava o despertar da nossa comunidade médica e assistencial. Aquela ocasião marcou, sem dúvida, além do despertar, o reencontro de nossas responsabilidades com o histórico de vida por nós mesmos construído, tendo sido um momento de manifestação de repúdio e indignação com a realidade de desordem, descaso, omissão e negligência no trato da saúde pública no município do Rio de Janeiro. De lá até hoje, muitas foram as batalhas! Mas estamos novamente reunidos para a cerimônia de posse, com a correção que os trâmites burocráticos definem, a não ser pela enorme defasagem de tempo. Afinal, são dezoito meses decorridos entre a eleição e esta data! Mais do que a estranheza pelo hiato de tempo, há de parecer intrigante, senão constrangedor, que parte de nossas lutas tenham se dado na procura de demonstrar e esclarecer as competências e atribuições do Corpo Clínico para nossos próprios pares, além da cobrança de acolhida, defesa e respeito pelo órgão do qual esperávamos a iniciativa de tais lutas – o CREMERJ! Nós estamos celebrando a posse de uma organização que, a despeito de estar constituída e ter construído a história do nosso Hospital, hoje empenha-se em buscar a sua afirmação, reconhecimento e identidade. É como a saga do cidadão que, tendo nascido, cresceu, constituiu família e, de repente, é surpreendido com a notícia da própria morte. Ou melhor, da sua inexistência. “Mas eu existo”, diz o infeliz. – “Trabalho, pago tributos, tenho família, filhos, até netos...!” A resposta é fria e técnica. “Sua identidade não consta dos arquivos! Francamente”. – diz a autoridade –, “o senhor foi muito descuidado! Tanto tempo para se dar conta da própria inexistência?! Não podemos fazer nada! A culpa é sua, como também sua é a responsabilidade de buscar a reconquista de sua identidade”. Pois bem, nós do Corpo Clínico e Assistencial do Hospital Cardoso Fontes estamos empenhados nessa luta que é realmente de vida ou morte. E nós só apostamos na vida! Mas, condições não nos faltam para provar que estamos vivos, que construímos uma história e de que somos capazes de continuar a construção, elaborando nossos planos, estabelecendo metas, projetando sonhos. O Hospital Cardoso Fontes foi criado a partir do Sanatório que acolhia os pacientes com doenças pulmonares, notadamente os tuberculosos, tendo no comando a notável figura do médico que deu àquela Instituição sua competência e à nossa Unidade o próprio nome. Começava, então, pelos médicos que iam sendo atraídos para esta casa (portanto, o seu Corpo Clínico), a elaboração das bases e o desenho do perfil do que seria o atendimento desta Unidade de Saúde. Não foi a partir de uma normatização pré-determinada, decreto ou portaria governamental que os Serviços foram sendo montados, que se foi percebendo a necessidade desta ou daquela especialidade, deste ou daquele profissional. Tal montagem e planejamento se fez a partir da determinação e da consciência de se aplicar a boa prática médica e de se oferecer a merecida assistência à saúde da população. Assim foi que as Clínicas Cirúrgicas, todas as Clínicas Médicas, a Pediatria, os Serviços de Apoio, os de Diagnóstico, a Emergência, os Ambulatórios e todos os Serviços Assistenciais foram se estabelecendo e se expandindo para muito além dos seus limites físicos. A partir do idealismo, do alto conhecimento científico, da constante busca de aperfeiçoamento e atualização dos recursos técnicos, o Hospital Cardoso Fontes tornou-se campo propício e reduto de formação de muitos e muitos residentes que têm levado para os mais variados cantos do Brasil os conhecimentos e a experiência adquiridos com o seu Corpo Clínico e Assistencial. Pois bem, durante seu percurso de construção e estando em pleno exercício de suas atividades, o Hospital Cardoso Fontes foi surpreendido com a implantação da gestão municipal. Sem cerimônias, de maneira arrogante, ignorando a vocação de Hospital Terciário, desrespeitando nossas Chefias de Serviço, desconhecendo totalmente o significado e a importância de um Corpo Clínico, a gestão municipal trouxe sua estrutura administrativa e a implantou, anulando, com empáfia, a única organização que jamais poderia ser desconsiderada, pois que é exatamente aquela que detém as prerrogativas, as determinações legais e as competências técnicas para conduzir a política de saúde dentro de nossa Unidade. Quantas vezes assalta-nos a perplexidade pelo inusitado do que vivenciamos! Quantas vezes ocorre-nos pensar quão risível seria, não fosse a dramaticidade da situação. Em todo o mundo, o Corpo Clínico de uma Instituição é o fundamento, a base, a voz de respeito, acatada e prestigiada. É prática mundial e constitui o “modus vivendi” nos estabelecimentos de assistência médica, o cuidado, o respeito, a reverência aos Serviços e, por conseqüência, às suas Chefias. Elas não representam cargos gerenciais, não são escolhidas mediante nomeações, portarias, atos administrativos. As Chefias de Serviços Médicos e Assistenciais nascem espontaneamente, apoiadas em uma gama de valores que passam inexoravelmente pelo notório saber científico, pela inegável capacitação técnica, pelo poder de liderança, reconhece o empenho da aglutinação em torno de uma proposta de trabalho, não desconsiderando o fator de antiguidade, muito menos desprezando os preceitos morais e éticos. Antes de mais nada, tais Chefias são aclamadas e escolhidas por seus pares que nada mais são que os integrantes dos próprios serviços e, portanto, têm o apoio e o respaldo do restante do Corpo Clínico. Em conseqüência, e como não poderia ser de outra forma, essas mesmas Chefias constituem e são cargos de confiança desse mesmo Corpo Clínico que as escolheu. Assim, as Chefias pertencem aos seus Serviços, a eles retribuindo igual respeito e dedicação de que são alvos. É dessa troca que se estabelece um convívio de equilíbrio em que a moral e a ética são os fiadores. É importante que se esclareça que quando o Corpo Clínico defende com tal ênfase os serviços e advoga os critérios de escolha de suas Chefias, em momento algum está afrontando a autoridade administrativa. O que defendemos, porque é incontestável, é que as administrações, por mais brilhantes que sejam, não têm a perenidade dos Serviços. Entretanto, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro ignora o Corpo Clínico e foi com esse desconhecimento que a gestão municipal aqui se instalou. De acordo com o seu Organograma Gerencial, vários serviços foram truculentamente atingidos. Chefias muito caras foram destituídas e suas substituições nem sempre atenderam aos critérios com os quais estávamos acostumados a orientar nossas escolhas. Serviços permaneceram sem Chefias por longo tempo, apesar destas terem sido indicadas pelo Corpo Clínico. No entanto, outras Chefias foram nomeadas à revelia desta entidade, simplesmente por critérios administrativos. E o que dizer de um serviço da importância e estratégia como é o da Emergência que, irresponsavelmente, continua até o momento sem chefia?! Infelizmente, mesmo após inúmeras tentativas, as nossas autoridades gerenciais e administrativas não conseguiram ser sensibilizadas para o fato de que acatar o papel do Corpo Clínico é formar uma parceria, de onde se objetiva um único fim – a boa assistência à saúde da população e da qual decorre um só poder a ser quebrado – o da Omissão. Mas não estamos aqui apenas para apontar o dedo em riste e fazer cobranças. Temos que admitir que a nós também cabem responsabilidades por tal situação. Não há como responsabilizar somente as autoridades pelo descuido, descaso, desinformação, desrespeito... Repito o que já disse, por mais de uma vez, neste mesmo local: viemos de um longo período de frouxidão de nossas regras de comportamento. Desconhecemos nossos deveres e direitos, negligenciamos nossas responsabilidades. Mais do que lenientes, temos sido fracos e muitas vezes trilhamos por perigoso caminho – o da conformidade – e que nos leva, inexoravelmente, à Omissão. Se não, vejamos como entender a situação da Emergência. Até quando os seus integrantes vão permitir que tão precioso Serviço, ao qual dedicam seu talento, competência, esforço e a própria saúde, seja desmantelado, desrespeitado? Que maiores afrontas estarão esperando os médicos da Emergência do Hospital Cardoso Fontes para se mobilizar, se organizar, escolher uma Chefia e juntar-se ao restante do Corpo Clínico, a fim de constituirmos uma voz única e forte com capacidade de definir o destino e a posição da nossa Emergência, tanto dentro do próprio Hospital quanto no âmbito da AP 4.0? E o que podemos pensar quando até mesmo as chefias não se dão conta da própria importância, comportam-se como se não fizessem parte de um todo, caminham alheias às dificuldades e descasos de que são vítimas outros Serviços, ou ignoram que o Corpo Clínico é um fórum legítimo das discussões que afetam esta organização? Reverter este estado de espírito, elevar a auto-estima, provocar a indignação, questionar as autoridades, chamar para a discussão nossas inteligências, lembrar que devemos reconquistar nossos direitos sem que esqueçamos nossos deveres, buscar as vias legais para nossa afirmação... Insistir, insistir e insistir tem sido o lema da Direção do Corpo Clínico. E lá se vão 18 meses! Terá sido uma perda de tempo? Tenho certeza de que a resposta é, NÃO! Mas que tem sido uma batalha, lá isso é verdade! Às vezes, a sensação é a de que domamos um leão a cada dia! Mas continuamos a nossa luta! Tal como na Canção do Tamoio, ouso repetir o poeta: “A vida é luta renhida. Viver é lutar. A vida é combate que os fracos abate, que os forte, os bravos, só pode exaltar”. E nós somos bravos, somos fortes! A cerimônia de hoje prova isso e a presença do Sr. Secretário de Saúde deve trazer algum alento ou, no mínimo, demonstrar aos integrantes do Corpo Clínico e Assistencial do Hospital Cardoso Fontes que nossa insistência é capaz de mobilizar personalidades, sensibilizar espíritos, cativar e seduzir os profissionais, provocar atitudes e respostas. O Sr. Secretário, aqui representado pelo Dr. Mauro Marzochi, provavelmente desconhece com que zelo e cuidado temos tratado e conduzido o desafio que assumimos de elaborar o Projeto do Hospital Cardoso Fontes. No entanto, saiba que, por conta do desafio proposto pelo Sr. Secretário, temos depositado nesse Projeto muitas expectativas, investido tempo e dedicação, trabalhado árdua e incansavelmente. Na verdade, o Projeto do Hospital Cardoso Fontes, elaborado pelo seu Corpo Clínico e Assistencial, tem por desafio, não a sua idealização. Como já foi exposta e é sabido, essa idealização há muito tornou-se realidade. O desafio que enfrentamos e que haveremos de levar avante é o de retomar a nossa construção e então demonstrar que somos capazes de expandir metas e realizar muito mais. O Projeto do Hospital Cardoso Fontes, como uma Unidade de Atendimento Terciário inserida dentro da CAP 4.0, tendo como pressupostas a boa prática médica e assistencial e a dedicação ao ensino e pós-graduação de novos profissionais, há de se estabelecer, consolidando a trajetória que seu Corpo Clínico e Assistencial iniciou há quase 30 anos. Àqueles que o ceticismo é impedimento para sonhar, àqueles que a ousadia é desconhecida e descrêem da possibilidade de abrir os próprios caminhos, aos que se resignam e perderam a capacidade da indignação, aos que se acomodaram e por conta de benesses, de cargos, indicações e comissões se esqueceram de quão valiosa é a liberdade de ação e pensamento, infelizmente a estes restará a poeira do caminho! Ao Corpo Clínico e Assistencial do Hospital Cardoso Fontes, o destino é o caminhar, é a luta, é a vida! Agradecemos as presenças das autoridades, dos convidados e de todos Dr. Jorge Darze Presidente do SinMed/RH
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